The Insane Clock

Insane clock in my head, strange hours that doesnt exist

Tuesday, July 04, 2006

Sinais

A volta no desconfortável trem lotado: horário de pico, muitos suores , bafos, cheiros desconcertantes, cotoveladas e pouco, muito pouco espaço. O habitual. Finjo ser esnobe com meus fones, música alta instigando pensamentos, mas na verdade observo atentamente todos à minha volta, o prazer indomável. Ao meu lado, um jovem de seus vinte e poucos anos de mãos calejadas faz sinais para outro que está sentado na cadeira mais próxima (estávamos de pé). Não sei por que, pensava que surdos-mudos eram pessoas boas, pensamento ridículo, talvez até preconceituoso de certa forma, mas todos aqueles que conheciam os sinais me pareciam bons de coração.

Uma senhora ganhou meu olhar, a senhora e suas muitas sacolas. Ela fitou meu pequeno espaço com ardor, manteve o contato visual, que dizia claramente "deixa eu ir praí", eu me ajeitei e abri espaço. Não sei em que momento comentei que as pessoas eram sem educação e não deixavam as cadeiras preferenciais livres, fingiam que estavam dormindo e ponto. A senhora concordou, claro, e o jovem antes ao meu lado, agora em minha frente, adentrou na conversa: "concerteza". Não era surdo-mudo (não era mais bom?), mas sua impressionante frase me deu um sorriso torto. Disse mais alguma coisa sobre esse absurdo nos trens e, logo, critiquei o país e o modo como tratava os idosos (cotidiano) e o jovem concordou, olhou...concordou..."concerteza". Logo depois o vi tentando convencer (em linguagem de sinais) o amigo a deixar a senhora sentar (Seria uma boa alma?). O amigo não concordava com o belo gesto e o jovem fazia cara de reprovação (estaria eu errada sobre a bondade dos surdos-mudos?). Convenceu, enfim, o amigo, mas a senhora não aceitou a oferta. Se ofereceu, então, para abrir meu salgadinho. Eu não quis, "muito obrigada". Não...ele só queria comer, não o salgadinho, mas a mim. Pretensão? Não, realidade.

Pouco tempo depois vivi um clichê: olhar com faíscas. Vi uns belos olhos negros num lindo porte alto, roupas simples (perfeitas) e moreno de boca carnuda. Como sempre, fugi à minha maneira. Tinha um olhar marcante, que me procurou, e morri de medo. Desviei. Olhei para o velho broxante à minha frente, mais medo. Criei coragem e procurei o garoto de novo. Tive o reconforto, mais faíscas...e logo chegava em casa. Ele não parou na mesma estação. (Não consegui dizer o que queria com o olhar, o meu era mudo e sem sinais).

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